domingo, 26 de setembro de 2010

Trapaças e Acasos

Carlos e Velasquez-

               Velasquez me ligou a quase uma hora.Ele está meia-hora atrasado,sabe que eu detesto atraso.Marcamos nesse bar porque adoro o suco de frutas que eles servem,pode parecer
estranho um sujeito entrar em um bar para beber suco,mas eu faço isso.Gosto desse lugar,mas o cantor que esta se apresentando essa noite já me encheu.Agora ele começou a tocar uma música
sobre uma prostituta que levou um tiro,esse é o futuro da nossa música popular?Finalmente o maldito colombiano chegou,ele foi criado aqui em nosso país,mas ainda tem um leve sotaque,o que 
lhe dá um ar de traficante internacional.Estou curioso pra saber o que ele tem pra me dizer:

                                "-Meu amigo Carlos!Como estás Carlitos?"

                                "-Cansado de esperar por você,Velasquez.Espero que tenha serviço para fazermos."

                                "-Melhor que isso.O quê esta bebendo?Isso é suco de uva?Por acaso você está..."

                                "-Já tivemos essa conversa Velasquez.O que pode ser melhor que serviço para nós?"

                                "-Estou falando de grana fácil,sem desgaste físico ou mental,bem aqui nesse isopor."

                                "-O que é isso?Alguma bebida?Sabe que não bebo.Quer por acaso montar uma maldita adega?"

                                "-Não é bebida.Por acaso você conhece aquela japonesa ali atrás?"

                                "-Que japonesa?"

                                "-A que está de pé indo ao banheiro,ela estava olhando pra você,galantiador como sempre,não é Carlitos?!"

                                "-Não seja preconceituoso,só por que ela é asiática não quer dizer que seja japonesa,pode ser coreana ou chinesa."

                                "-Chineses tem um formato de cabeça diferente do dela e coreanos tem os olhos um pouco mais arredondados.Ela é japonesa."

                                "-Você não me fez vir até aqui para me mostrar que sabe diferenciar asiáticos,certo?Vai me mostrar o que tem nesse isopor?" 
 
                                "-Vou lhe mostrar."

         
                       O canalha abriu a tampa da caixa de isopor por baixo da mesa,quase vomitei.

                               "-Que merda é essa?"

                               "-Um fígado!"

                               "-E vai fazer isso acebolado?!Tá traficando órgãos agora seu patife!?"
 
                               "-Nunca é tarde para iniciar um novo empreendimento,meu amigo.Por sorte sua eu estou disposto a te dar 10% do lucro da venda se você encontrar um comprador."

                               "-Essa é boa...Onde você arranjou isso?Quem era o infeliz?

                               "-Essa é a parte lucrativa do negócio.Eu não precisei arrumar isso,simplesmente achei no banco de um táxi,que sorte não é?"

                               "-Tá me dizendo que alguém estava carregando a porra de um fígado num táxi e esqueceu no banco?Espera que eu acredite nisso?"

                               "-Exatamente.Sorte grande,né?Não sei como foi parar lá,mas estava lá.Podemos ganhar uma grana alta em cima disso.Você é meu amigo,vamos entrar juntos nessa,cara.Eu só
não tenho idéia de quem esteja precisando disso.Podemos repassar pra traficantes experientes de órgãos,o que me diz?"

                                "-Estou fora,não quero entrar nessa,tá bom?"

                                "-Qual o problema Carlos?Você e eu damos pequenos golpes juntos a anos!Você já sequestrou pessoas,até já deu tiro em cima de mutia gente!"

                                "-Isso é diferente,isso é muita sacanagem.Explorar alguém que tem problemas de saúde?É por isso que eu não bebo!A bebida acaba com o fígado de um sujeito,sabia?Meu pai era 
alcólatra,ele não iria querer me ver nessa."

                                "-Seu pai te ensinou a arrombar um cofre quando você tinha 7 anos.Aos 12 ele te deu uma maleta de ferramentas e te levou pra casa dos vizinhos.Enquanto os pais estavam na sala,você
foi ao quarto da madame,abriu o cofre e saiu com as jóias da senhora dentro da caixa de ferramentas,dizendo que eram ferramentas de brinquedo!Acho que ele não se importaria se você colaborar comigo..."

                                "-Pare de falar de mim como se fosse da minha família e mais respeito com a memória de meu pai."

                                 "-Você que começou a falar do velho."

                                 "-Tá vendo,você já ta insultando meu pai.Quer saber?Faça bom uso desse treco! Hastá..!"

                                 "-Hastá,maricón!"



Júlia,Miyuke e Marta-
       

                       "-Vamos repassar o plano Myuke.A cirurgia começa as 10:15 da manhã.Eu vou te dar o sinal quando o órgão for retirado.Quando eles forem colocá-lo na ambulância para ser doado para outro paciente num outro hospital,você,que vai
estar disfarçada de médica,vai retirar o órgão no estacionamento e vai entregá-lo para Marta que vai estar no carro estacionado atrás da ambulância,alguma dúvida?"

                       "-Não,tudo bem simples mesmo."

                       "-Miyuke,até aí eu lembro de tudo o que combinamos,agora diga,onde está o fígado e porque Marta está morta?!O que você fez de errado?"

                        "-Eu,nada!Marta saiu com carro e o fígado,mas houve alguma  coisa na saída do estacionamento,acho que suspeitaram dela.Eu a vi sair do carro e entrar num táxi com o isopor.Depois ela saiu do carro sem o isopor e com uma pistola na mão,
trocou tiros com uma viatura da polícia que fica sempre ali na porta do hospital,o resto você já sabe."

                        "-Mas que droga!Meses me passando por funcionária,dias planejando e essa idiota me estraga tudo!Nós três temos uma dívida a pagar!Agora você vai arrumar um fígado novo para o chefe.Ele nos acolheu desde quando éramos menininhas inocentes
e nunca nos desrespeitou!Agora ele está doente e nós devemos isso a ele!"

                        "-Tudo bem,deixa comigo então!"



 Velasquez- (Horas Antes)

     Está difícil manter,as despesas são grandes.Saio essa manhã determinado em fazer dinheiro.Pego minha toca ninja e meu bem mais valioso,minha pistola automática.
     Não tenho tempo de planejar.Entro numa cafeteria qualquer,só me certifico de ser longe da pensão onde estou hospedado,uma bela vizinhança diga-se de passagem.
     Peço um café.Poucos clientes,apenas três velhotes.Não deve ter muito dinheiro no caixa,mas eu só preciso de uns trocados mesmo.
     Vou até o banheiro,coloco minha toca,não sei porque fiz isso,todos já tinham visto meu rosto mesmo.Meti o pé na porta,saquei a arma e anunciei o assalto.A adrenelina...É isso que me move,até gosto dessa vida.Mas como eu poderia adivinhar que os três coroas sentados a
mesa eram policiais aposentados?Os desgraçados carregam cada um seu revolver,eles largam o dedo em cima de mim,tento revidar inútilmente,vi pela vidraça que meu disparo atingiu alguém que passava pela rua.Me tranco no banheiro e me grudo como uma lagartixa na parede.Eu virei refém dos velhotes.
Me mandaram sair pacificamente,disseram que esse lugar é frequentado por policiais a gerações.Eu de via ter escolhido melhor.
      Olhei para frente e vi uma janela enorme que dava para rua.Quem é o idiota que põe uma janela assim no banheiro de um estabelecimento desses?Qualquer um pode entrar aqui e sair pela janela sem pagar a conta.Acho que o dono não deve ter se preocupado com isso,já que o lugar é
uma pocilga de malditos policiais,mas eu não sou um deles.Pulei a janela e entrei no primeiro táxi que vi,as coisas começaram a me favorecer a partir daí,quando encontrei a aquela caixa de isopor no banco.


Carlos-(Tempo Presente)

      O maldito Velasquez me fez perder tempo.Continuo sem um serviço para hoje.
      A tal japonesa do bar está me seguindo,ela acha que eu sou algum amador.Provavelmente quer me dar um tipo de golpe,esse tipo de mulher só pode querer isso comigo.Então eu me viro e pergunto:


             "-Está me seguindo?"

             "-N-não senhor,só queria lhe perguntar que horas são..." Ela estava trêmula e anciosa,como se estivesse prestes a fazer algo.

             "-Eu não sou idiota,é melhor você desistir e ir tentar assaltar algum outro babaca por aí.É melhor pra você."

             "-Você é um cara esperto.Não bebe,não é?Deve ter boa saúde,tem um bom fígado provavelmente..."

             "-Eu vi você me observando no bar.Engraçado você falar em fígado..."Nesse momento a vadia cuspiu algo em meu pescoço,um tipo de agulha,eu caí e tudo ficou escuro.


Júlia-

    Miyuke me ligou dizendo que conseguiu um fígado,melhor que isso,um corpo inteiro.O problema é que o dono dos órgãos ainda está vivo.Nós nunca matamos ninguém.
    Chego ao lugar onde ela está com o cara,um armazén abandonado.Nesses casos é melhor retirar o órgão enquanto o individuo está vivo.Posso fazer a cirurgia,mas e depois?Não podemos deixar o sujeito vivo,temos que matar o infeliz.Eu não farei isso,nunca fiz e nunca farei,
talvez eu até faça algum dia,mas numa situação extrema.Miyuke também não fará,ela é uma garota muito dócil,apesar de não parecer.
     Nessa hora lembro-me de um contato.Um matador de aluguel,na verdade é um sujeito que faz qualquer serviço por dinheiro.De trocar uma lâmpada a uma execução,é um homem bastante versátil,basta molharmos bem a mão dele.
     Miyuke sugere que se deixarmos o cara aqui sem o fígado e aberto ele irá morrer,mas isso me pesaria mais ainda a consciência.Apesar de anestesiado isso seria uma morte muito ruim para um cara que está nos cedendo um órgão,tudo bem,ele não está cedendo,estamos roubado.
Mas esse sujeito vai salvar a vida de uma pessoa muito importante para nós.O mínimo que posso fazer é conceder a ele uma morte rápida,mas não pelas minhas mãos.
     Decidida eu pego o telefone e ligo para o matador.Ele me diz que está por perto desse endereço e que chegará rápido,então eu apresso o serviço,mas nessa hora o cara acorda,não temos sedativo para apagá-lo,somente anestesia,ele vai ter que ver enquanto abrimos e retiramos seu
fígado.
     Minha amiga aplica-lhe a anestesia,ao menos ele está bem amarrado e amordaçado.
     Eu me preparo e esterilizo o local,pego o bisture e olho nos olhos do cara,ele é jovem,lembro-me dos motivos que me levam a isso e prossigo.O instrumento cirúrgico passa pelo corpo dele como uma faca de cozinha numa sensível manteiga.Tomo um susto quando ouço forte um bater no
portão do armazén.É o matador,não sei muito sobre esse cara,só que ele é um gringo que topa qualquer serviço,o chefe já utilizou os trabalhos dele algumas vezes.Ele vem caminhando ao lado de Miyuke que foi abrir-lhe o portão,estranhamente ele traz em baixo do braço uma caixa de isopor,
a minha companheira asiática é um tanto lesada e não percebe,mas de cara eu notei que conhecia aquele isopor.O nosso doador,por assim dizer,começa a ficar inquieto na mesa tentando se debater,enquanto o gringo olha pra ele com os arregalados e diz:

         "-O que vocês estão fazendo com o Carlos?!"

         "-Vamos tirar o fígado dele e depois você vai atirar nele pra gente.Você o conhece?Peraí,eu te vi no bar com ele agora pouco!" diz a Miyuke,demonstrando sua incrível alienação.

         "-Soltem meu amigo suas cadelas!Eu não vou matar Carlitos!Se é um fígado que querem vamos negociar,pois tenho um em mãos aqui comigo.Hehehe..mas ora que coincidência,não acham?"

         "-Acho que você não está muito em condições de negociar,temos seu amigo aqui perdendo sangue e você tem algo que pertence a nós."

         "-Está enganada gatinha,pode não acreditar mas eu achei esse fígado e eu tenho uma pistola na mão e vocês na mira,por tanto vamos falar sobre grana e resolver isso de forma agradável.Quanto vocês têm pra gastar?"o maldito sacou a arma e nos pos na mira.

         "-Esse fígado pertence sim a nós,você o achou num taxi,certo?"

         "-Ora,estão falando a verdade,esse negócio é mesmo de vocês,como foram esquecer isso num banco de taxi?"

         "-É uma longa história,podemos falar sobre isso enquanto seu amigo sangra até a morte,o que vai ser?"

         "-Droga,chegamos num maldito impasse,detesto essas situações."conclui o gringo,mostrando que se importava com vida de seu companheiro.


    O cara não é nenhum gênio,mas sei que ele é perigoso.Proponho então que vou costurar o corte que fiz em Carlos e ele me entrega o orgão.Ele topa.Resolvemos tudo da melhor forma.Saímos de lá apressadas,um fígado só dura 24 horas fora do organismo,precisávamos correr.
    Quando chegamos á casa do chefe,algo nos deixa preocupadas,todos estão tristes e cabisbaixos.Então soubemos que nossos esforços foram inúteis,o chefe havia sido baleado essa tarde,fora atingido por uma bala perdida durante uma troca de tiros ocorrida numa cafeteria,
enquanto se passava uma tentativa de assalto.Nosso chefe tinha saído amparado pelos seguranças dele para tomar um Sol,pois sabia que hoje conseguiríamos um transplante para ele.Sentamos e choramos inconsolávelmente.Penso em como somos insignificantes diante das coisas que
simplesmente acontecem sem que possamos fazer algo pra mudar.Ele viu o Sol pela última vez aquela tarde.
     Subi ao quarto dele e vi um e-mail recém chegado em seu computador,era do hospital,ele era o primeiro na lista de espera para doação,exatamente do hospital para o qual seria enviado o fígado que roubamos.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Composição de Domingo



                              Existem dias em que eu gostaria de não ter levantado da cama.Hoje é um desses dias.Domingo,um dia em que eu poderia passar tranquilamente
hibernando como um urso.Mas tenho trabalho a fazer.Sou músico,fui contratado para tocar em um evento nesta tarde.
                               Já passa de meio-dia e eu acabei de me levantar.Minha cabeça lateja como se meu crânio tivesse sido usado como badalo de um sino,mas não chegou
a tanto.Noite passada eu estava tocando meu violão em um palco de um pequeno bar quando uma briga começou.Assim que meus pés tocaram o chão na esperança de
encontrar o dono do bar e pegar meu pagamento,recebi uma garrafada na testa.Acordei com os bolsos limpos dez minutos depois;ao menos não levaram meus documentos.
Não recebi meu pagamento e me furtaram o pouco que trazia na carteira,ganhei um leve corte na testa e uma boa dor de cabeça.Mas uma coisa nova havia acontecido,meu dia
começou a ficar uma merda já de madrugada,que lindo,acho que vou compor uma música enquanto dirijo.
                               A minha vida começou a rumar para onde estou agora quando larguei a faculdade e me integrei a uma banda de rock.A banda não vingou,nenhuma gravadora gostou
do nosso som,éramos grunges em plena era colorida.Não havia espaço para nós no cenário musical contemporâneo.Devia ter me formado em letras mesmo.Agora me mato todos os dias
para sustentar meu aluguel.Mas essas coisas acontecem,a vida tem dessas coisas.
                               Chego no lugar onde irei tocar,não faço idéia de quem me contratou ou de como conseguiu meu contato,deve ter me visto tocar em algum bar pela cidade.É uma boate,está fechada
mas me mandaram vir essa hora.Estacionei,o pensamento de que caí numa espécie de pegadinha era constante em minha mente.Alguém acordou hoje e pensou em mandar um idiota vir a um endereço
qualquer,para ele perder seu tempo.Era o que parecia,se tratando da minha pessoa,era até normal."Que fase".Diriam as pessoas cheias de auto-estima,mas pra mim não,era mais que uma fase,já durava
dois anos.
                                Meu pensamento mudou quando veio ao portão um sujeito com pinta de capanga e realmente era,como fui descobrir mais tarde.Ele perguntou se eu era o cantor e me mandou entrar.
                                Lá dentro as cadeiras todas cobertas e o lugar vazio,continuei sem entender em que tipo de sacanagem estava me metendo.Até que o sujeito abriu uma porta escondida na parede dos
fundos.Ali estavam as pessoas mais bem vestidas que eu ja vi ao vivo,mulheres e homens,todos com roupas de luxo,só tinha visto isso antes em filmes que se passam em Las Vegas.Estavam ali,alguns
rostos conhecidos,uns deputados que vi na campanha eleitoral  na tv,o dono de uma rede de supermercados e um rosto que eu ja tinha visto nas páginas de um jornal,o contraventor procurado por envolvimentos com
máquinas de jogos de azar,Ricardo Rodrigues.
                                 O capanga me levou até Ricardo e eu logo soube onde estava e quem havia me contratado.Ali iria acontecer uma luta clandestina e eu fui contratado para tocar canções do Nirvana,a banda favorita da filha de Ricardo,
a jovem Anita.            
                                  Eu estava entre a corja de mafiosos mais suja da cidade.Entre politcos,traficantes e sabe-se lá o que mais.Mas não estava surpreso,estaria se fosse convidado para tocar no batizado de uma criança inocente.
                                  Ricardo me informou a programação do evento.Eu entraria no palco para tocar e a filha dele cantar.Foi o que aconteceu,tudo normal.Ja estavamos tocando por uns 40 minutos,as pessoas ali estavam completamente alheias
as canções,estavam mais preocupados com seus jogos.Cada mesa tinha uma roleta ou cartas de baralho.Era de se esperar que aquele tipo de gente não gostasse mesmo de Nirvana.A apresentação acabou,agora começaria a luta.Não quis ficar
pra ver.A tarde caía e eu temia ficar mais tempo ali,vai que chega policia,sei lá,quem sabe tem um policial infiltrado ali,nah,isso é coisa de filme.
                                  Recebi uma generosa remuneração.Fiquei com a impressão de estar recebendo dinheiro sujo,algo que sempre me neguei a fazer.Mas eu só fiz meu trabalho,sou um promissor cantor decadente,nada mais que isso.
                                  Saí pelos fundos,numa porta que dava para um beco.Ali parei congelado.A mais bela flor do jardim dos meus sonhos corria em minha direção,fui poético ao descreve-la,afinal de contas sou um músico,respiro poesia.
O rosto dela era o mais inocente que uma mulher adulta poderia ter.Era como uma doce criança no corpo de uma mulher.Se anjos andassem pela Terra não teria dúvida de que estava diante de um.Ela pegou numa de minhas mãos e disse:

                                                "-Por favor me ajude!"

                                                "-Claro!"não pensei duas vezes.

                                   Se eu tivese visto que logo atrás dela vinha um homem que mais parecia um gorila,minha resposta talvez fosse diferente.Mas nem tive tempo de pensar,tirei ela da direção e quando o homem enfurecido armou um soco,quebrei com
prazer o meu violão na cabeça dele.O cara era durão,ficou meio tonto mas não apagou,só que bastaram três chutes na cabeça,para desligar o cérebro dele.A mulher olhou para mim e soltou entre os lábios:

                                                "-Acho que você o matou."

                                                "-De nada."respondi ironicamente e prossegui:

                                                "-Você conhece esse homem?Por que ele a seguia tão enfurecido?"

                                                "-Não conhecia muito.E essa é uma longa história.Mas obrigada."

                                                "-Você poderia me agradecer melhor se me deixasse pagar-lhe um bebida talvez...Vou gastar grana comprando outro violão mas recebi bem esta tarde."

                                                "-Hum vejo que você é um artista,eu também sou.Mas não sei cantar nem dançar..."

                                                "-Então é atriz?"

                                                "-Também não,mas quanto ao agradecimento,posso passar na sua casa agora,melhor que gastar seu dinheiro."

                                                "-Gostei da idéia,vamos."

                                   Juro que não maldei a sugestão dela,ela tinha um jeito tão meigo e puro.Depois do dia que eu tive,só queria alguém para conversar e esvaziar minha mente.
Só que na verdade o puro e inocente fui eu.Se quem inventou a frase"uma dama na rua e uma vadia na cama" estivesse pensando nela,não teria sido tão cabível.
O rosto inocente e o jeito meigo desaparceram,aquele mulher me jogou no meu sofá e me faz gastar as mais bem gastas energias de toda a minha vida.Foi incrível.Depois de horas
caimos um para cada lado,esgotados.Parecia que minha sorte tinha mudado de uma hora para outra.Só parecia.Eu caí no sono por alguns minutos e quando acordei,ela ja tinha partido.Conferi minha carteira
e lá estava todo meu dinheiro.Sorri,minha sorte tinha melhorado,por apenas uma tarde,mas tinha melhorado.
                                    Levantei e fui para o computador,não sabia o nome dela mas queria encontrá-la,ela tinha pinta de atriz mesmo,mas sem o nome era impossivel achá-la.
O que aquele homem queira dela,era apenas um assaltante?Ou ela o conhecia?Não conseguia parar de pensar.Minha sorte podeira mudar se eu tivesse comigo uma figura tão meiga e completa
como ela.Uma mistura perfeita de armonia e caos era aquela dama.Isso,ela era uma dama,que escondia uma fera dentro de si.
                                    Numa atitude pouco inteligente voltei ao endereço naquela noite.E sim lá estava o sujeito que eu apaguei.Ele tinha umas mulheres com ele,eram prostitutas nitidamente.Eu chamei uma
e pude ver que aquele homem era um cafetão.Ele veio junto da mulher,ja me preparava pra sair com o carro mas ele disse:

                                              "-Olha só,você é o herói que salvou Raquel esta tarde."

                                  O homem sabia o nome dela.Uma das moças entrou no banco do carona.Ela me ofereceu seus serviços e eu acelerei.Ela se assustou.Mas eu a tranquilzei.Apenas perguntei se ela conhecia Raquel.
Ela me disse que não sabia muito sobre ela,apenas sabia que ela era nova empregada daquele homem chamado Jonas.Também me contou que Raquel havia roubado 10 mil em dinheiro de Jonas.
Não sei o que me surpreendeu mais,o fato de ela ser uma prostituta ou uma ladra.Estranhamente agora eu queria mais do que antes encotrar aquela mulher,queria conhecer a historia dela.A prostituta me perguntou de
onde eu conhecia Raquel.Lhe respondi com outra pergunta:

                                                "-Tem idéia de como eu poderia encontrá-la?"

                                                 "-Tenho aqui um cartão que caiu da bolsa dela,ontem quando a vi pela última vez.Mas não sei se tem algo a ver com ela."

                                                  "-Deixe-me ver."estacionei o carro numa esquina e comecei a analisar o papel.

                                    No cartão estava escrito:"Antunes,transporte de cargas e mudanças".E tinha um número,era a única pista que tinha não quis ignorar.
                                    A prostituta desceu do meu carro,disse que seu nome era Cláudia e que eu deveria procurar por ela quando estivesse a fim de me divertir.Considerei a orfeta por uns segundos em minha mente,mas voltei logo
a pensar em Raquel.Por que roubar tanta grana de um cara aparentemente tão perigoso?
                                    Peguei meu celular e liguei para o tal Antunes das cargas.Ele atendeu no primeiro toque:

                                               "-Alô?"
                                              
                                               "-Senhor Antunes?"

                                               "-Sou eu,mas não trabalho hoje,é domingo!"

                                                "-Não quero seus serviços senhor,só quero lhe fazer uma pergunta."

                                                "-Que tipo de pergunta?É da polícia rodoviária?!Escute aquilo não era meu,apenas transporto,sou pago pra isso,não cabe a mim verificar o que há na carga...

                                                "-Não,não se preocupe senhor,apenas quero lhe perguntar se conhece Raquel..."

                                                "-Minha filha!Você é o cafetão que está com ela,não é?!Seu miserável!"

                                                "-Pelo contrário senhor,quero ajudá-lo a encontrar sua filha,podemos nos encontrar logo mais?"

                                                "-Mas quem é você?"

                                                "-Apenas um amigo."

                                       Vinte minutos depois nos encontramos em um bar perto da residência de Antunes.Ele me contou todo o decorrer dos fatos detalhadamente até ali:

                                                    "-Eu estava carregando 100 mil reais em produtos receptados do Paraguai.A polícia rodoviária me parou,pediram a nota fiscal dos produtos,eu lhes apresentei a nota.
Porém acharam um pacote com algumas gramas de cocaína no meu porta luvas.Então tive que oferecer mercadorias num somatório de 10 mil reais aos gentís senhores.5 mil para cada um.Malditos exploradores!
O problema é que a carga era para o ilustre senhor Ricardo Rodriguez,não sei se você o conhece."

                                                     "-Sim,estive com ele essa tarde.Coincidência...Homem de negócios,não?"

                                                     "-Exatamente.Aquele sujeito não tolera falhas,foi meu primeiro trabalho para ele.E provavelmente o último.
Quando eu cheguei com 10 mil a menos na carga ele percebeu.E me deu um prazo de 3 dias para repor seu dinheiro ou eu pagaria com a minha própria vida.Minha filha soube desse fato,e sumiu logo depois,temi que
ela tivesse sido raptada pelos homens de Ricardo,mas daí você me apareceu falando sobre Raquel."
                        
                                                      "-Quando foi que isso tudo aconteceu?"

                                                      "-Três dias atrás.Agora vai me dizer se sabe onde está minha filha?"

                                        Eu ia lhe contar tudo o que sabia.Raquel havia se arriscado para salvar-lhe a vida,ela roubou Jonas para pagar a dívida do pai.Porém enquanto conversámos uma BMW parou ali na calçada em frente ao bar,seu Antunes
reconheceu o carro,era de Ricardo Rodriguez.Antunes levantou da mesa puxou uma pistola da cintura e saiu do bar:

                                                      "-Veio tomar a minha vida,não é seu canalha!?"

                                         Ricardo já saiu do carro com uma metralhadora,era noite e havia pouca gente na rua,mas os gritos se misturaram as balas.Antunes atingiu Ricardo que enquanto agonizava atirou contra Antunes e contra seu próprio carro.
Quando os disparos terminaram,eu saí eu fui ver Antunes,estava morto,Ricardou pronunciou com a boca cheia de sangue:

                                                       "-Sua filha me pagou estúpido!Só vim lhe dar uma carona!"Ricardo espirou ali também.Mas suas palavras me fizeram correr até o carro.

                                           Lá dentro encontrei o anjo que me encantou.Apertando sua barriga contra si.Raquel,a filha dedicada estava morrendo.Minha garganta secou e lágrimas saíriam pelos meus olhos se eu não as tivesse contido.Não havia nada que
pudesse fazer.Ela fez um gesto apontando para trás do carro e docemente fechou seus olhos.Olhei para trás e não vi nada diferente,então fui ao porta-malas.Lá dentro encontrei uma mochila.Não tive tempo de abri-lá.A polícia chegava com suas indiscretas sirenes.
                                           Ao chegar em casa abri a mochila,nela estavam malotes de dinheiro em notas de cem.Contei pouco mais de R$ 9,800 reais.
                                           Pode parecer que sou insensível mas a sorte me sorriu.Estava com um dinheiro que não pertencia a ninguém.
                                           A memória de Raquel não seria esquecida.Compuz uma canção.Eternizei a delicada fera em poesia e versos.